De forma particular a Nova Canção consistiu em um repúdio à cultura invasiva capitalista e, especialmente, à estadunidense, buscando fortalecer-se enquanto identidade. Nessa perspectiva, este trabalho objetiva analisar por quais processos e meandros se deram sua construção, bem como relacioná-lo a temática identitária latino-americana.
Efetivamente não se pode pensar a nova canção apenas pelo viés cultural ou político, de modo isolado privilegiando um ou outro, assim trata-se de estabelecer inquestionável ligação entre cultura e política. Diante de tal assertiva busca-se compreender as extensões de tal relação. Composto de inúmeros artistas o movimento se torna interessante na medida em que abre possibilidade de perceber não apenas o lado cultural-artístico desses homens e mulheres, mas também seu engajamento político.
Dessa forma, pretende-se identificar e analisar nas canções do movimento Nova Canção seu teor político e identitário. Nesse aspecto analisa-se a participação de precursores como Violeta Parra, Victor Jara, Quilapayun, Intillimani, do Chile; Mercedes Sosa, Athaualpa Yupanqui, da Argentina; Sílvio Rodriguez e Pablo Milanez, de Cuba, inseridos em contexto histórico de um mundo dividido em dois blocos, o capitalista e a proposta “socialista” soviética.
Este trabalho, no que se refere à abordagem do fenômeno latino-americano fundamenta-se na visão de Velasco (2009), do ponto de vista da identidade revisita o trabalho historiográfico de Larrain Ibañez (1996) e Valdéz (1996), Garcia (2009), Silva (2000), Silva (2009), Woodward (2000), Duarte (2009), Gonzalez (2009) e Rolle( 2009). Na sua abordagem contextual histórica é contemplado pelos pensamentos de Guazzelli (1993) e Hobsbawm (1998).
Importa esclarecer que se fez muito uso de artigos da internet, porém, levando em consideração a seriedade dos sites, a formação dos autores e seus vínculos institucionais. Não menos importante é refletir sobre as dificuldades de acessibilidade às fontes documentais e bibliográficas de temas que não sejam inteiramente pertinentes ao país. Não se considera aqui o melhor caminho para uma pesquisa, porém devido a relevância da abordagem do objeto escolhido, preferiu-se sua manutenção.
Do ponto de vista metodológico propõe-se a análise e a revisão historiográfica e bibliográfica dos seus principais elementos, ao mesmo tempo em que analisa letras de música como documento de registro histórico, na perspectiva de como foi pensada a identidade latino-americana e suas implicações ideológicas, políticas e sociais.
PERÍODOS DE CRISES E A CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES LATINO-AMERICANAS
Para muitos intelectuais latino-americanos pensar a América Latina significa pensar sua identidade e vice-versa. De acordo com Valdéz (1996, p. 181), faz parte de um universo conceitual onde se articulam diversos outros se constituindo em um sistema de pensamento. É assim que diversos teóricos a analisam ora associando-a ao autóctone, ora ao camponês mestiço (criollo), com o urbano subdesenvolvido ou com o latino.
Com base na leitura Larrain Ibañez (1996), nota-se que o tema da identidade latino-americana é analisado como decorrente de momentos de crise, períodos que considera ter originado diferentes sínteses culturais. Assim, o primeiro momento de crise ou síntese cultural resultou do encontro das culturas espanhola e indígena. A segunda síntese cultural teria surgido no contexto das guerras da independência hispano-americanas sob a influência do liberalismo, do positivismo e do Iluminismo. Nesse contexto o racionalismo científico era o que se acenava como única esperança para o estabelecimento de “Ordem e progresso” das repúblicas emergentes.
Efetivamente se pode compreender que em um primeiro momento a cultura latino-americana resultou da cultura indo-ibérica altamente influenciada pela religião católica, pelo racismo e fusão com os elementos culturais nativos dos países e, no segundo momento, resultou-se em um novo polo que pretendia incorporar as novas idéias européias do racionalismo e do liberalismo.
Ao final do século XIX as influências do positivismo e idéias iluministas conduziram à prática de rechachamento da cultura indo-ibérica resultada de 300 anos de colonização, ao mesmo tempo convivia-se com as idéias de implementação de culturas européias e também estadunidenses como prática de solucionar as consideradas deficiências latino-americanas. Pensava-se em uma América Latina que precisava ser “civilizada” nos moldes europeus e ou estadunidenses.
Um terceiro período de crise surgiu na América Latina entre as guerras mundiais e grande depressão do sistema capitalista, a chamada crise de 29, época em que a harmonia baseada na política coronelista e nas oligarquias latino-americanas se deteriorou e as classes médias e trabalhadoras desafiavam a ordem estabelecida. Por fim, Larrain Ibañez se refere a um quarto período de crise originado por volta dos anos 70 do século XX, quando houve um estancamento no crescimento industrial, colapso dos regimes populistas e numerosas ditaduras militares, especialmente no cone sul.
Olhando para o momento de origem da Nova Canção, percebe-se que se deu no fim do terceiro período de crise e durante o quarto período. Refere-se, portanto, ao momento posterior a segunda guerra mundial e advento da Guerra fria. No intuito de permitir entender este momento da história como uma crise dentro de outra crise, deve-se retroceder no tempo histórico porque a história é um processo e é preciso analisar em particular as conexões e relações de vários fatos que conduza a uma melhor compreensão desse período.
Cabe observar as considerações de Hobsbawm (1998) em torno do século XX quando afirma que a revolução como uma constante global na história do século. Para o autor (1998 p. 61), “A revolução foi a filha da guerra no século XX; especificamente a Revolução Russa de 1917[...]. Embora sua referência seja à socialista soviética observa-se que fazem parte do mesmo processo histórico a crise, o colapso (a Depressão financeira de 1929), seguida de uma Segunda Grande Guerra Mundial e a Guerra Fria dando os contornos de uma ordem global, mundial.
Em todo esse cenário traçado pelo autor integra-se a América Latina que sentiu de muitas formas todos os acontecimentos, sobretudo, as conseqüências dos embates da Guerra Fria. Desde o início esteve envolvida na disputa pelas áreas de influencia do capitalismo estadunidense que mais uma vez trouxe a tona a Doutrina Monroe para manter afastado, especialmente, o socialismo soviético.
Nos anos 60 do século XX os países latino-americanos se apresentavam genericamente em duas situações: determinados países ainda continuavam mergulhados nas antigas formas de dominação oligárquicas, em outros, a burguesia havia se instalado no poder através do populismo. Nos que haviam superado o Estado oligárquico, determinadas condições estruturais possibilitaram um desenvolvimento industrial, ampliando seus mercados e permitindo alguns benefícios sociais, desenvolveram-se mecanismos políticos tais como os sindicatos e inclusão de partidos, criando uma sensação de participação no poder pela massa. Contudo, o que estava embutido nisso tudo era a forma de atuação do imperialismo estadunidense como se pode observar nas palavras de Guazzelli (1993, p. 26),
A intervenção do imperialismo foi decisiva nas questões latino-americanas, tendo sido desenvolvidas duas estratégias fundamentais. A primeira, desencadeada no final de 1961 - e que praticamente se encerrou com a morte de Kennedy e a ascensão de Johnson -, era uma versão mais elaborada da “política do dólar”, sendo batizada de “Aliança Para o Progresso”. Além de prever investimentos nos paises da América Latina, havia uma orientação no sentido de reduzir as profundas desigualdades sociais das nações do continente, apoiar os governos liberais e reformistas a afastar-se das oligarquias mais reacionárias. A idéia geral era oferecer possibilidades que evitassem a opção pela luta revolucionária, como ocorrera em Cuba.
Em um cenário mundial marcado pela rivalidade político-ideológica da Guerra Fria, os movimentos de massas apareceram reivindicando reformas sociais e econômicas, se chocando de tal forma contra os interesses das oligarquias agrárias ou contra os grupos empresariais. Estas elites, rurais e urbanas, tendiam a abraçar o capital e de forma conservadora ditavam os limites que impunham rumos nas democracias latino-americanas.
No bojo dos movimentos, tanto populistas quanto socialistas sob a orientação da URSS agiam, e contra suas ações levantava-se a resistência das elites criando uma situação de forte instabilidade político-social. Assim freqüentes golpes de estados se sucedem em vários países, cujos governos eram fracos demais para contenção do radicalismo popular. Tais governos militares contavam com o apoio do capital estrangeiro, em especial, dos Estados Unidos que se empenhavam, sobretudo, em uma “cruzada anticomunista”, mantendo assim sua hegemonia sobre a América Latina.
Segundo Valdéz (1996, p. 184), a América Latina pode ser entendida a partir da oscilação entre motivações que são básicas no contexto histórico, a modernização e a identidade. A América Latina passou por um processo de acelerada urbanização, de industrialização e surgimento das camadas médias urbanas caracterizando, assim, sua modernidade.
O moderno enfatizava o científico e a tecnologia ao mesmo tempo em que sugeria a imitação de países considerados mais desenvolvidos e, de certa forma, incentivava um desapego aos elementos culturais próprios. É nesse âmbito que se discute outros fatores presentes no contexto histórico descrito, pois a presença do imperialismo estadunidense nos paises latino-americanos não os caracterizou apenas em sentido político, militar e econômico.
Dentro deste contexto aprecia-se um momento histórico em que segundo Silva (2009, p. 8), a América Latina experimentava uma avalanche que foi a entrada da cultura estadunidense, como parte de uma política imperialista em contexto de Guerra Fria, ao mesmo tempo em que reagia a partir dos mais diversos movimentos culturais latino-americanos, que concomitantemente e identitariamente se voltou para as expressões artísticas populares.
A resistência nas suas mais variadas expressões se pode apreciar a partir da Nova Canção e as diferentes concepções de seus artistas, alguns orientados para o debate sobre o caráter das manifestações folclóricas, na defesa de uma cultura popular a partir de um hibridismo resultado da cultura criolla, e outros que, a exemplo de Violeta Parra, defendiam um folclore mais próximo da realidade social em que a sociedade se encontrava, apartando-se e negando as raízes criollas.
Seguindo a linha de pensamento de Woodward (2000 p. 9), que diz só se poder considerar a identidade a partir de uma relação, dentro da percepção do outro e do eu, sendo, portanto, relacional, e marcada pela diferença. Têm-se nesse cenário latino-americano diferentes elementos políticos, culturais que colocam em questão as perguntas identitárias.
Os paradigmas externos sempre impulsionaram reações contrárias entre a intelectualidade latino-americana em diferentes tempos. Diversos intelectuais se posicionaram contra a cultura estadunidense: José Marti, de Cuba; Rubén Darío, da Nicarágua; José Vasconcelos, do México; Rufino Blanco Fombona, da Venezuela; Manuel Ugarte, da Argentina se opuseram juntamente com o uruguaio José Enrique Rodó, ao que denominou de nordomania. Todos sustentavam a idéia de que a América Latina possuía maior sensibilidade cultural reivindicando, assim, virtudes da “raça” latina e maior sentido idealista, em oposição ao pragmatismo estadunidense.
Nesse contexto de projeção dos Estados Unidos como potencia mundial e sua maior presença na América Latina associa-se, segundo Garcia (2008.p. 484-485),
[...] as transformações sociais, econômicas e culturais decorrentes dos avanços tecnológicos, de um mercado mais dinâmico, internamente alimentado pelo crescimento demográfico das cidades e externamente pela intensificação das trocas em nível mundial, materializaram-se na presença de um outro, sob a forma de uma cultura distinta, propagada pelos meios de comunicação de massa (rádio, cinema e indústria fonográfica).
Acentuaram-se as oposições por parte dos intelectuais que, diante das transformações, exercendo uma forte pressão por justiça social, propunham melhor distribuição de renda e reforma agrária, dentre outras. Setores progressistas da igreja e organizações estudantis tanto populistas quanto esquerdistas, dentro de um quadro de forte influência socialista, procuravam mobilizar trabalhadores contra a ordem de então. Para estes, a única saída era democratizar o estado e para os extremistas isto significava a instalação de uma ditadura revolucionária, além de combater o capital e a cultura estrangeira.
Conforme Rolle (2000, p.1-3) A revolução cubana em fins da década de 50 do século XX, propiciou uma onda de entusiasmo, estimulando as mais diversas correntes de esquerda, de tal forma que elegiam elas Cuba como um modelo. Com o Chile ocorreu o mesmo. Na década de 60 do mesmo século estas forças de esquerda rechaçavam a ordem tradicional a ponto de desejarem uma “Revolução Chilena”.
Podem se considerar tais ações como construtoras da identidade latino-americana porque conforme Woodward (2000. p. 10), “[...] a construção da identidade é tanto simbólica quanto social. A luta para afirmar as diferentes identidades tem causas e conseqüências materiais [...]”. Fica claro uma identificação de um “eu” latino-americano a partir da diferenciação do que era o “outro” dentro de uma situação de crise não apenas ideológica, mas também oriunda de motivos de natureza material e, portanto, social. Assim, a identidade latino-americana se faz e refaz-se compreendida em sua dinamicidade, em períodos de crise. Como afirma Silva (2000. p 82), [...] a identidade significa demarcar fronteiras, significa distinções entre o que fica dentro e o que fica fora. A identidade está sempre ligada a uma forte separação “nós” e “eles”.
Em um cenário com acentuados e convergentes problemas de ordens política, econômica, social e cultural constatados na alta concentração de renda, na desigualdade social, na pobreza, na repressão e que ainda, tinha como pano de fundo a tão almejada modernização, o movimento enfatizou a defesa da cultura, da etnia e da terra, num encontro ou num reencontro consigo mesmo a partir das suas raízes.
ANÁLISE DO MOVIMENTO E DA MÚSICA NUMA PERSPECTIVA IDENTITÁRIA
Como já foi dito anteriormente, mesmo de uma forma rápida, o fenômeno da Nova Canção se enquadrou na postura daqueles que historicamente lutaram contra a presença do modelo estadunidense assumido como possibilidade de modernização para os países latino-americanos. No entanto, chegou o momento de aprofundar sua análise no sentido de apresentá-lo em suas diferentes facetas, integrando-o ao contexto acima tratado - a temática identitária latino-americana.
Com relação a uma provável construção identitária no seio da Nova Canção há que se considerar situações históricas distintas vividas pelo Chile, Cuba, Argentina, Uruguai, Brasil entre outros países que viveram o movimento. Por outro lado, é necessário observar que em suas diferenças, se aproximavam por inúmeros elementos em um contexto que não se pode dizer chileno, argentino ou outra qualquer especificidade, mas latino-americano.
O poder ideológico da construção identitária e o engajamento político fomentado pelos mecanismos patrocinados pela esquerda no caso da maioria dos países latino-americanos revelaram nas suas criações os anseios sociais que, mesmo de forma diferenciada, representou um trabalho concreto que pode ser visto de forma mais imediata como de resgate de uma cultura folclórica, mas que em profundidade esse resgate constitui uma resposta em forma de protesto frente ao elemento externo.
A América Latina revelou por meio de suas canções reflexos dos anseios de justiça social na maioria dos seus países. Dessas canções se depreende uma tomada de consciência para a pobreza, e a miséria do povo. Sob outro aspecto, particularmente chileno, pode-se observar nestas canções a representação de uma mudança no modo de vida marcado pelo êxodo de uma cultura rural, campesina para o meio urbano, momento em que houve uma retomada de elementos folclóricos e herança criolla.
Tanto em sentido político, social e cultural tem-se implícito uma reflexão identitária uma vez que o outro aparece de diferentes formas. Diante do outro são recuperados traços da identidade latino-americana que, de forma sincrética, envolve religiosidade, política a partir do discurso social, o amor a terra, ao semelhante de forma fraterna que em muito recupera o discurso da unidade latino-americana de outros tempos.
São estas características que neste trabalho importam para analisar as canções do movimento Nova Canção de forma a relacioná-las ao contexto político e social, bem como as demandas por identidades decorrentes das crises engendradas nesse cenário. Política, religiosidade, amor são temas que aparecem às vezes isoladamente e outras vezes interligados, de forma recorrente nas quatro canções selecionadas para análise, a saber: Canción con todos, Plegaria a un labrador, La carta e Los hermanos.
A música “Canción con todos” (1982) de Armando Tejada Gómez e César Isella, uma forte representação do Novo Cancioneiro, de certa forma incorporou a ideia de uma identidade latino-americana, sobressaindo-se o pensamento político de integração: Salgo a caminar/ pela cintura cósmica del sur/ vuelvo a la región mas vegetal del viento y de la luz/ Todas la voces todas/ todas las manos todas./ Sol de alto Peru/ rostro Bolívia estaño y soledad, un verde Brasil,/ besa mi Chile cobre y mineral/ canta conmigo hermano americano, libera tu esperanza/con un grito en la voz.
A começar pelo seu título a música, em si, já é um convite à integração, clara nos versos citados. Nota-se que na canção, os compositores fazem referências aos países latino-americanos convidando-os a uma fraternidade. É assim que então conclama a todos para cantarem sua canção. Uma proposta de unidade que esteve presente entre os intelectuais americanos desde o processo de independência, condição colocada por Bolívar para criar uma identidade latino-americana forte, capaz de fazer frente ao domínio espanhol, parece retomar a mesma lógica quando de um contexto imperialista estadunidense. Todos estes anseios de uma unidade americana de certa forma são transportados e veiculados pela música. Não se trata do ato simples de cantarem juntos apenas, e sim de irmanar corações e mãos em um projeto comunitário que enfim seria a América Latina pretendida. Corroborando a idéia destacam os autores a paisagem e a riqueza latino-americana, juntos em uma unidade poderiam vencer as influências externas.
O contexto, entretanto, é outro, nele o enfrentamento se dá com o que o cubano José Martí (1983, p. 198), considerou ser o tigre do norte a espreita atrás da árvore e que chega com garras de veludo. Nesse contexto, no embate entre capitalismo e socialismo que a América Latina mais uma vez jogou o jogo das identidades com uso de elementos que soam forte para o homem latino-americano. É assim, que há na construção dessa identidade um “quê” de religiosidade atestada por Larrain Ibañes quando considerou a primeira síntese cultural como marcadamente religiosa. Este elemento, a obediência religiosa a “dios”, foi e ainda é uma constante na formação de tal identidade. É o que é possível entrever nos versos da canção chilena Plegaria a un labrador de Victor Jara, (1969)
Levantate y mira la montaña/ de donde viene el viento, el sol y el lágua/ tu que manejas el curso de los rios/ tu que sembrastes el vuelo de tu alma/ levantate e mirate en las manos/para crecer estrechala a tu hermano/ juntos iremos unidos en la sangre/ hoy és el tiempo que puede ser mañana/ libranos de aquel que nos domina en la miseria/ traenos tu reino de justicia e igualdad/ sopla como el viento la flor dela quebrada/ limpia como el fuego el cañon de tu fuzil/ hágase por fin tu liberdad aquí en la tierra/ danos tu fuerza y tu calor al combatir/ sopla como el viento la flor de la quebrada/ levantate y mirate las manos/ para crecer estrechala a tu hermano/ juntos iremos en la sangre/ ahora y en la hora de nuestra muerte amén/ amén, amén.
Apesar do apelo ao socialismo em voga na época, antes se destaca o elemento religioso, pois na tradução de seu título tem-se que se trata de uma prece. Tu que manejas el curso de los rios” ou “libranos de aquel que nos domina en la miseria/ traenos um reino de justicia e igualdad[...]” estes versos denotam uma oração, uma suplica de alguém que acredita em algo forte que tudo conduz. Porém, olhando em uma perspectiva político e social, a plegaria (prece) foi dirigida não a Deus e sim ao lavrador chamado a revolução. [...] juntos iremos unidos en la sangre/ hoy és tiempo que puede ser mañana/ libranos de aquel que nos domina en la miseria/...) limpia como el fuego el cañon de tu fuzil/ hágase por fin tu liberdad aquí en la tierra[...].
Estes versos citados por último acenam a possibilidade de construção de uma nova realidade, que não era preciso esperar, podia ser feita no hoje, ou seja a partir das ações revolucionárias. Nesse sentido as mudanças ocorreriam não pelas ações divinas, e sim por ações humanas desempenhadas por alguém que tinha o poder, a arma, a força, mas elevado à condição divina. A prece era dirigida a este homem.
Não se pode negar seu caráter político e a conclamação, a integração de um “povo” que enfim realizaria a mudança. Jara e os novos cancioneiros pregavam uma consciência do artista e seu engajamento político por meio dos trabalhos de arte, no caso específico do Chile, pensava-se uma revolução pacífica realizada através de eleição, mas, entretanto, havia aqueles que dentre os artistas pregavam a necessidade de uma revolução armada se preciso fosse. Jara com esta canção parece reconhecer essa necessidade.
Interessante apontar este mesmo pensamento na letra de Paulo Sérgio Valle e música de Marcos Valle, intitulada “Viola Enluarada”, de 1967, o que aponta de certa forma os elementos de construção identitária que fora, no período, uma conscientização promovida pelas canções. É o que se pode perceber na letra da música:
A mão que toca um violão/ se for preciso faz a guerra/ mata o mundo fere a terra/ o mesmo pé que dança um samba/ se preciso vai à luta/ capoeira/ quem têm de noite a companheira/ sabe que a paz é passageira/ pra defendê-la se levanta e grita/ eu vou!/ Mão, violão, canção, espada/ e viola enluarada.
Este mesmo pensamento de conscientização política e o interesse social deveriam ficar claros nas canções. Nesse aspecto seus criadores tinham que ter consciência de serem sujeitos da história e, portanto, compromissados com a sociedade como um todo. A música devia servir como meio de transformação. Assim as canções latino-americanas, muitas dentre elas, traziam uma conotação de profunda tristeza e denunciavam à época as injustiças sociais.
Dentro do movimento Nova Canção no Chile, para Duarte e Gonzalez (2004 p.6), Violeta Parra, a criadora de La Carta, Gracias a la vida e Rin de angellito, talvez seja a principal expoente da música chilena. Suas composições englobam obras de caráter instrumental e canções de raízes folclóricas, mas distante de um folclore criollo, ou seja, de um folclore resultante de um processo de aculturação de elementos ocidentais e hispânicos. Suas letras partem das questões sociais e deixa claro seu posicionamento em face dos problemas sociais, assumindo um sentimento anti-estadunidense.
Em La Carta, Parra denuncia a prisão de alguém que havia participado de uma greve que já fora resolvida. De uma natureza política muito forte, composta entre os anos de 1960 e 1963 é um documento de como se encontrava o Chile na época. Roberto, um nome fictício foi à representação, a incorporação não apenas de um personagem que fora preso, mas a significação de qualquer socialista preso e a certeza dos laços que os uniam e daí o termo hermano, socialistas estes que se chamavam de comunistas como no verso: “Por suerte tengo guitarra/ para llorar mí dolor,/ también tengo nueve hermanos,/ fuera de él que se engrilló,/ todos son comunistas,/ con el favor de mí Dios, si.” Dizendo ela contestar os motivos da prisão se propunha a ser presa, parecia pretender dizer que para cada socialista preso, outros tantos co-existiriam libertos e irmãos em ideal.
Este parece ser o mesmo sentido do pensamento da canção de Athaualpa Yupanqui (1976), Los Hermanos: ”yo tiengo tantos hermanos/ que no los puedo contar,/ en el valle, en la montana,/ en el pampa y en el mar,/ cada cual con sus trabajos, cada cual,/ e una hermana mui hermosa/ que llama libertá!” O ideário socialista não apenas os irmanavam, os libertavam. Assim no pensamento de Yupanqui, a voz deixava de ser individual, de ser argentina ou chilena, quando utilizada por Violeta Parra, se somava uma a outra como uma canção com todos. É nesse sentido que se pode compreender quando na canção ela diz - eu que me encontro tão distante, esperando notícias, me vem dizer a carta que em minha pátria (Chile) não se fazia justiça, os famintos pedem pão e lhes molestam a polícia.
Em seguida faz crítica ao governo da época Jorge Alessandri, da Democracia Cristã. O Chile houvera sido palco de várias propostas socialistas, destacando-se entre estas a Democracia Cristã que se propunha à justiça social mesmo dentro do modelo capitalista, mas enfim esta justiça não se havia cumprido, os direitos sociais requeridos pela greve como no caso em que a Roberto havia participado. A Democracia Cristã havia mudado na prática o discurso socialista. É a Jorge Alessandri que ela chama de leão sanguinário e a Democracia Cristã:
De esta manera pomposa/ quieren conservar su asiento/ los de abanico y de frac/ sin tener merecimiento/ van y vienen de la iglesia/ y olvidan los mandamientos/ si/ Habrá se visto insolencia/ barbarie y alevosia/ de presentar un trabuco/ y matar a sangre fria/ a quién defensa no tiene con las dos manos vacias/ La carta que me mandaran/ me pide constestación/ yo pido que se propague por toda población/ que el Léon és un sanguinário/ en toda generación/ si/ Por suerte tengo guitarra/ y tambiém tengo mi voz/ también tiengo siete hermanos/ fuera del que se engrilló/ los nueve son comunistas/ con el favor de mi Diós, si…
A música de Violeta Parra, a canção politizada, a Nova Canção, segundo Duarte e Gonzalez (2004 p. 6), havia sido estruturado naquela década de 60 do século XX, propunha-se tanto a denunciar as arbitrariedades de governo que não atendia as reclamações populares como em “La carta”, quanto para investir em um projeto eleitoral comprometido com as utopias. O grupo Quilapayún, alinhado com a campanha de Allende, havia gravado “La carta” em 1969, além de outras de cunho social, inclusive de outros autores latino-americanos como Yupanqui. Diversas gravações pontuam inúmeros momentos da história dos países latino-americanos. Além dos já citados, uma delas sem dúvida foi quando da sua gravação pela cantora Mercedes Sosa, em 1971, quando a Argentina vivia a ditadura militar do general Onganía.
Esta música tinha transposto o limiar do nacional e ganhava fronteiras em outros países onde a prática política oprimia e causava miséria, tratando com poderes de polícia a fome. No Uruguai resistia-se, em 1967, contra a ditadura militar, no Brasil ela estava no auge através do AI-5 e no Chile pretendia-se um processo socialista através de Allende, que enfim suplantasse a Democracia Cristã e realizasse a tão sonhada justiça social. “EL León”, da letra de Parra conforme Duarte e Gonzalez (2004 p. 8), dialoga com um cenário maior e passa representar todos os ditadores e todos seus auxiliares latino-americanos.
Dessa forma, mais uma vez se pode notar a força de uma unidade americana contra os atos representativos que impossibilitavam a América Latina de caminhar sozinha, e que enfim atava os anseios imperialistas em defesa dos latino-americanos. Assim é que em outra leitura de “La carta”, gravada pelo grupo Raices de América em 1980, no ritmo da chacarera , com uma pequena mudança na letra onde Parra dizia “los nueve son comunistas” a nova versão havia mudado para: “todos são revolucionários”.
É preciso destacar como o pensamento latino-americano se entrelaçava e irmanava, bem como as canções serviam como um mecanismo de expressão que deixavam claro seus sentimentos comuns. Sentimentos esses fortemente arraigados às causas sociais e conseqüentemente preocupados com elas, ao mesmo tempo em que expressavam também seu desgosto pelo comportamento daqueles que oprimiam o povo ou, oprimia a elite intelectual que pensava construir uma identidade latino-americana. Esta elite procurava deixar claro seu tom de desgosto e desabafo e quando acontecia nas canções, sua voz não era apenas de uma nacionalidade e sim ganhava ares unindo ou ao menos se propondo a unir, vários países em torno de seus temores, dissabores, injustiças, desapontamentos, etc. Tanto foi assim que quando uma música era lançada em um país, pouco tempo depois surgiam versões ou outras canções a reclamar em mesmo tom os valores citados por outras.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta breve análise da história latino-americana, foi possível perceber os embates em torno da identidade latino-americana, em diferentes períodos e, especificamente no recorte estabelecido, um cenário dividido entre as duas grandes potências da época da Guerra Fria e seus respectivos sistemas políticos, econômicos e ideológicos. Paralelamente às posturas de aceitação e mesmo desejo da influência norte-americana conviveu uma postura de resistência formada em vários âmbitos e demonstrando, portanto, a diversidade de pensamentos e interesses políticos, sociais e culturais que formavam e ainda formam o ideário americano.
Tal complexidade permitiu reflexões em torno da problemática identitária comprovando o tema como algo intrínseco ao próprio pensamento latino-americano. Considerada a identidade em seu caráter dinâmico sem, contudo, desconsiderar certo atavismo que se articulam às identidades que se faz e refaz em diferentes tempos.
É assim que, sobre o objeto aqui investigado, a Nueva Canción latinoamericana, pode-se afirmá-lo como fenômeno que teve dupla orientação: uma específica que dialoga com os membros de uma determinada comunidade e outra continental que dialoga com praticamente toda a América Latina marcada por semelhanças históricas, condição essa que possibilitou relacionar as composições musicais a uma idéia de unidade latino-americana tão cara àqueles que empreenderam os movimentos por independência das colônias espanholas e idealizaram uma América livre e forte.
Resumen: Este artículo tiene como objeto analisar el movimiento Nueva Canción que ocurrió en el período de 1960 a 1980, contexto de la Guerra Fría en ámbito mundial, que imprimió consecuencias para los países latinoamericanos. Con origen en Chile, la Nueva Canción, se irradió por la Argentina, Cuba, Uruguay y, en general, para toda la América Latina. En este sentido, es posíble pensarla como un fenómeno genérico que, mismo particular en cada país, dialogó con el todo americano. A partir de tal consideración el objeto pretiende discutir el movimiento en su relación con la construcción de la identidad latinoamericana en el destacado período. Para realizar esa propuesta echa mano del análisis bibliográfico de teóricos que discutieron sobre la identidad latinoamericana y el movimiento Nueva Canción, además de analisar algunas músicas interesantes para establecer la relación entre el contexto histórico del período, el movimiento y la construcción de una identidad americana.
Palabras-clave: Identidad; Nueva Canción; Guerra Fría.
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. Acessado em julho de 2009.
Documentos
Manifesto Del Nuevo Cancioneiro. Disponível em: www.tejadagomez.com.ar/obra/otros/02.html. Acessado em julho de 2009.
Fonográficas:
ISELLA, César. GÓMEZ, A. Tejada. Canción com todos. Mercedes Sosa. Mercedes Sosa 30 Ãnos,1993
JARA, Victor (s.d). “Plegaria a um labrador”. Victor Jara. 1969
PARRA, Violeta. La Carta. Raíces de América. Raíces De América Seleção De Ouro.1988
YUPANQUI, A. Los Hermanos. Elis Regina – Falso Brilhante. 1976
AGRADECIMENTOS
À causa primária de todas as coisas, à suprema inteligência do universo. Aos professores e Mestres do cotidiano que tão bem revelaram bondade, desprendimento e honradez no exercício de suas funções. Em especial à Giselle Garcia de Oliveira, orientadora deste trabalho.