Corria o ano de 1989. O mês era maio e naquele dia 18, estávamos todos contentes. Nós do Grupo Espírita, havíamos vencido as dificuldade iniciais para a implantação do trabalho assistencial. Haviam os espíritos nos solicitado que iniciássemos o atendimento aos companheiros enfermos do plano espiritual, ainda que debaixo de uma árvore, ou em casa de pau-a-pique.
Naquela época, não tínhamos sede. Nossos trabalhos aconteciam em um compartimento emprestado, de cuja organização administrativa participavam vários companheiros do Grupo Espírita. Surgiu então a oportunidade alugarmos em frente ao referido abrigo, um barracão de três cômodos e passamos a realizar ali os trabalhos, a evangelização infanto-juvenil, o trabalho de palestra e agora, a desobsessão.
Naquela quarta-feira, depois da comunicação dos dirigentes espirituais, no primeiro dia aquele trabalho, um caso em particular, chamou-nos a atenção a ponto de emocionar-nos.
Apresentou-se-nos, para a doutrinação, o espírito de uma criança desequilibrada, infeliz e carente. Muito rebelde, agredia-nos, pulava bastante, batia palmas e exclamava:
- Cadê as crianças? Elas não estão hoje aqui! Eu gosto de brincar, de correr, de pular, eu empurro todas elas! Ih! Ih!Ih! É cada tombo que dou nelas! Eu vou derrubá cada um dôceis! Um por um, eu quero trapaiá! Eu vou trapaiá todo mundo!...
Aquela criança passou a conviver conosco, nós no plano físico o material e ela no espiritual. Passou a participar das aulas de evangelização, na marcenaria que mantínhamos a trancos e barrancos... também nas campanhas que realizávamos no CEASA , em busca de verdura e alimentos para a sopa que fazíamos.
Em uma das sessões, ficamos conhecendo mais um pouco a seu respeito:
- Ei! Cê achou que eu num vinha, né? Ih! Ih!, nem que seja um pouquinho eu venho! Cê achou que eu num vinha, né? Como é que vai?
- Como vai você?
- Eu to muito bem!
- Com Jesus? Trabalhando muito?
- Ih! Eu to muito bem, muito, muito, muito....
- Com Jesus?
- Muito... Demais...
- O que você está achando do nosso Grupo?
- Ih! Ta tudo feio, tudo horroroso mesmo, tudo feio...
- Mas, nós estamos tentando, e assim, a gente vai melhorando um pouco, melhorando o nosso sentimento, o nosso íntimo, o nosso trabalho...
- Eu dei uma ajudadinha procêis esta semana, cê viu?
- Qual foi a ajudazinha? No Forte Apache?
- Foi. Eu trapaiei. Eu trapaiei ocê lá...
Registramos aqui uma coincidência. O Evangelizador que dialogava com a entidade era o mesmo que ministrava a evangelização na Marcenaria, para algumas crianças encarnadas e, conseqüentemente, para as desencarnadas que a espiritualidade conduzia àquele ambiente, que precisavam receber também educação e evangelização. O forte apache era um brinquedo novo que o “tio” tentava desenvolver na madeira.
- Que nada, você estava torcendo para que tudo desse certo, eu já estava ficando nervoso... Nós estamos contando com a sua ajudazinha lá com os meninos...
- Eu num vô ajudá... Eu vô é ficá lá cutucando os meninos...
- Eu tenho certeza de que quando você viu o brinquedo pronto você também gostou, não é?
- Ficou horroroso, ficou horroroso...
- Mas, você gostou, você viu que os meninos brigaram por causa dele?
- Fui eu quem fiz eles brigarem...
- Você ficou com ciúme. Você também queria um. Nós vamos fazer para você com muito amor, com muita vibração... Vamos pegar o amor que há nos nossos corações e fazer um brinquedo muito bonito para você. Agora, eu quero saber o seu nome...
- Ih! Mas ocê pergunta, heim? Você pergunta heim? Mas eu já falei como eu era chamado...
- Menino de rua não!. Menino de rua é menino que está abandonado, que não tem ninguém. Você não. Você já tem a nós, tem esta casa, você já tem amparo. Nós vamos adotar você. você viu que fizemos esta casa, na é? Ela também é sua. (a entidade chora baixinho). Quando não estivermos, você pode vigiá-la para nós...
- Um dia, uma fessôra me chamou de bonezinho branco... Cê é burro.. Cê num sabe disso não? Depois eu vorto, ta?
- Vá com Deus, como é o seu nome? Ah! É o bonezinho branco...
- É o bonezinho branco, mas eu tenho nome...
- Deve ser Joãozinho, Serginho, você tem cara de Zinho, viu?
- Eu apronto mesmo... Você acertou, é Zinho mesmo. É Zezinho, agora vocês já sabem, é Zezinho.
- Vá com Deus, está na sua hora, vá com Deus.
Zezinho era um menino de rua e na rua desencarnara.
Pouco a pouco, ele melhorava. Já não era tão agressivo, apesar do seu sotaque divertido, transcrevemos, a seguir, um diálogo ocorrido após a campanha do CEASA . Nele registramos o gosto de Zezinho pela música, ponto fundamental no seu tratamento, ponto de ligação entre os nossos corações (ou seria religação?)
- Ei! Ei! Num me deixaram vir. Eu vim assim mesmo, eu corri e vim assim mesmo! Ih! Ih!Ei pra todo mundo!
- Ei!
- Todo mundo não quer que eu venha, ninguém me deixa vir, porque eu só falo besteiras... É bom demais.
- Eu quero saber o que você fez com a Flávia hoje no Ceasa...
- Ah! A Flavinha?!!! A Flavinha??!!! Eu dei um cutucão nela. Eu num falei que ia atrapaiá ocêis lá?
- Ela falou mesmo: “Foi o Zezinho que me empurrou!...” Nós ganhamos muito coisa hoje...
- Ah! Aquilo lá é fichinha! É Fichinha!
- Só que a tia Flávia não gostou muito daquele cutucão não, viu?
- Eu vô de qualquer jeito! Nem que seja na roda do carro, dependurado. Hi! Já to falando besteira! Eu vou trapaiá todo mundo! Ei, cadê os meninos da marcenaria, aqules menino atentado?
- Nós demos um descanso para eles...
- Pois é, eu to com saudades deles, cê sabe do que eu gosto? ´Quando ela aqui oh! (Fala o nome de uma das tias da evangelização) toca aquele tum tum!(violão), é bunito demais... Cadê o tocador(violão)? Cê num vai tocar pra mim não? ( - Eu toco para você todos os dias Zezinho! – responde a tia).
- E eu escuto e vou rebentá todas aquelas cordas, ocê vai ver só porque ocê num quer tocá para mim... Cadê o nosso trabalho? Eu num quero trabaiá não! Eu quero é ficar preguiçoso, eu quero é ficar à-toa, mas eles aui ficam me mandando para vcoês... Nóis num vai trabaiá não, nóis vai é cantar nas rua... Eu quero é cantar nas ruas junto dos meninos... Gente! Na casa dessa daqui tem um monte de tocador (02 violões, 01 guitarra). Eu vou quebrá tudo se ocê num tocá pra mim... Cadê a tia Flávia? Eu sei porque a tia Flávia num ta aqui hoje! Gente hoje é a formatura dela, gente, eu tava lá na casa dela. A Flavinha, tava muito bunitinha, gente! Tava muito bunita, gente! Ta tudo bão, gente? Depois eu vorto viu? Tchau para todo mundo!...
Em uma oportunidade de estudo, o tema era a música e este que descreve a história dissertava sobre a importância da arte, e enquanto discursava entusiasmado sobre o tema, foi mostrado através de quadros de vidências de uma das médiuns da casa, Zezinho, no século XVI como escritor.
No seu envolvimento conosco, Zezinho ofertava alegria, recebia afeto sincero, carinho. Comparecia também nas reuniões de orientação e numa destas apresentou-se choroso e triste...
- Ei gente! Ei pra todo mundo! Hoje num quero nem falá. Num me deixaram vir aqui. Num sei se fico alegre ou se fico triste, só de pensar começo a chorar... Tchau gente! Tchau gente!
Naquela noite uma dorzinha batia no nossos corações. Era já a antecipação da dor da saudade, a mesma dor que fazia Zezinho chorar. A dor da separação... Esta foi a última comunicação que tivemos com o Zezinho... Intuitivamente percebíamos que ele iria reencarnar (renascer) e nos sentíamos como ele próprio: Não sabíamos se alegres pelo seu retorno à carne ou tristes pela separação. Ficamos a meditar: Porque aquele menino fora parar nas ruas? Apesar da separação necessária, não nos esquecemos dele e decidimos trazer a sua experiência a público. Porque da sua rebeldia? De onde provinha? Qual a razão da sua agressividade? Solicitamos aos dirigentes espirituais que nos fornecessem mais dados a respeito dele.
Estas informações nos chegaram através da Irmã Laura, alma bondosa e querida, estrela de rara beleza, que dignou nascer novamente em terras brasileiras, no Estado da Bahia, em 23 de dezembro de 1990, disposta a diminuir o sofrimento do nosso mundo.
Eis a história de Zezinho contada por Irmã Laura, um ano antes dela renascer:
... José Leopoldo de Queiroz nasceu em Portugal. Foi um dos maiores escritores da época em que viveu. Fora-lhe determinado por espíritos amigos que escrevesse artigos que despertassem a humanidade para o amor aos carentes, para a fraternidade e a caridade. No entanto, tornou-se escritor político. Por algum tempo viveu a ganância do dinheiro e, assalariado, foi muito bem pago, escrevendo artigos contra cidadãos honestos, até que veio a desencarnar ainda moço, pobre boêmia. Chegou ao plano espiritual em condições de fazer dó. Fora lhe programado o seu reencarne, o que foi tentado através de várias mulheres sem responsabilidade, foi abortado 05 vezes.não conseguia alguém que pudesse acalentá-lo até que um dia reencarnou através de uma amiga e, ao contrário das outras vezes, quando teve de abandonar o seio materno, enfim conseguiu-se manter na carne. As condições materiais eram precárias. Desnutrido, com várias enfermidades chegou atingir uma certa idade. Com seis anos, já comandava grupos de meninos na rua. Vivendo de um lado para o outro, separado da mãe, conseguiu chegar aos doze anos. Nesta faze, seguido de seus companheiros e conhecido por Zezinho (nome que ele carrega por várias encarnações) desencarnou não em conseqüência das drogas, mas em um acidente, embora estivesse dopado. Isto acontece por que as pessoas viram as costas para estas crianças, que batem às nossas portas, que não são capazes de aproximar de um banco de jardim e dar uma palavra amiga... Zezinho passou muito tempo em preparação, rebelde, desorientado, esteve em vários grupos de aperfeiçoamento, até que conseguiram encaminhá-lo aqui, onde desabrocharam suas primeiras florezinhas, ainda meio rebelde, mas já consciente ele vem, para uma nova experiência difícil. A sua situação não é diferente no seu estado material.
Naqueles dias que antecediam novembro, uma aura de tristeza envolvia este que narra a história. Esta aura de tristeza estimulava o vazio nele, era como se a cada ano, cada novembro eclodisse o vulcão dos seus sentimentos. Este estado o predispunha à mudanças, apesar do ostracismo costumeiro, os sentidos eram aguçados, fazendo crescer seu potencial de observação. Isto o transformava em um sonhador, nos seus vôos perdidos, eterno apaixonado pelas causas nobres e perdidas. No seus sonhos escondia a incapacidade e anseios de luta por tais causas. Sentia ele então a indiferença e o desconhecimento pressentidos então nos corações das pessoas. É preciso melhor mecanismos de prevenção, melhor estruturação no organismo social para o tratamento desta célula dolorosa, entretanto as pessoas vendo-a tornaram-se cegas. A sociedade assiste passivamente em estado agônico ao auge dos seus valores negativos. As pessoas estão muito preocupadas consigo mesmas, ainda carecem do amor pelo próximo.
Goiânia é assim. Cidade bela, árvores grandes. Muito verde espalhado a colori-la, matizado pelo vermelho, amarelo violeta e azul das suas flores ornamentais e flora importada. Mas toda esta beleza não é bastante para esconder a beleza das flores tristes que vagam, pelas ruas, pés descalços, dorso nu, roupas encardidas a mendigarem de nós compreensão e carinho, a furtar-nos os bolsos. Entretanto parece-nos mais fácil não vê-las. Estamos muito ocupados, precisamos lutar para que nossos filhos estudem nos melhores colégios, para que conquistem posições condizentes com os nossos “status”, enquanto fingimos não ver a situação caótica da educação nas escolas oficiais. Cada um que zele por si e de seus filhos. Não é problema nosso. Eles que vivam de acordo com o seu poder aquisitivo. Assim, quando nossos filhos com livre acesso à melhor educação e informação desfilarem suas belezas e juventudes, trajando “marcas” e aureolados pelo diploma de vencedores, horrorizados, mas com ares de quem sabem o que diz, exclamem taxativos:
- É preciso implantar apena de morte!...
Querem destruir o criminoso, mas continuam a fomentar o crime... Isto para não dizer que a pena de morte existe, legalizá-la seria a pior das injustiças...
... Nos arredores de Goiânia. Numa cidade circunvizinha, em um dos seus bairros mais miseráveis. Numa família numerosa e paupérrima, retorna ao casulo da carne, Zezinho. Chega em um momento difícil, em que as pessoas alarmadas falam de pena de morte em um país onde se matam 400 meninos de ruas por ano. Chega de pele morena, olhos claros, sorriso maroto, esqualidez dos sofrem a fome. Chegou em um dia de greve no sistema de saúde e teve a sorte de não morrer por falta de atendimento.
Chega em um momento em que vivemos uma grave crise moral. Quanto às suas chances de vencer, só o tempo dirá. Ele que sempre viveu tempos difíceis, encontra-se agora em dificuldades ainda maiores, porque terá que vencer a si mesmo nesta sociedade egoísta. Pouca chance terá.
No bairro que abriga o Zezinho, como em outros também miseráveis, na maioria das cidades brasileiras, outros Zezinhos estão também desabrigados. São de todas as idades, recém-nascidos, até aqueles que ainda não encontraram a bala perdida, a metralhadora de um grupo de extermínio ou a fome não minou de todo as suas forças e permanecem de pé, porquanto tempo ainda não se sabe.
Zezinho vencerá? Não depende só dele. Depende de nós, do nosso amor, do contrário ele falirá de novo...
Na data de hoje 09 de agosto de 2010 ele se encontra com 20 anos, só isto é que sei...
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