LC Menezes: Arte, cultura & cotidiano
segunda-feira, março 07, 2011
Retrato de Porto Seguro
A primeira impressão sentida
Ao pisar as areias
Das praias de Porto Seguro
É a de deslumbramento e pequenez...
Extasiados ante a beleza do mar
Nossos poros se põem em guarda
E os pelos ficam eriçados.
O mar que há na’alma da gente
Ameaça em ondas invadir
Os limites de nossos espelhos...
O mesmo conflito das águas em pororoca
Se revela em nossos corações
Mas diante de tanta beleza
Tolamente nos sentimos agradecidos
Ao Grande Arquiteto
Por pensar ser parte deste universo.
Este êxtase é quebrado
Por vozes pataxós infantis:
- Môço! Compra um colar p’rá me ajudar...
ou então é um dos nossos
desses que transpiram generosidade afirmando:
- Vamos comprar que é para ajudar a baianinha!
Desta vez os limites de nossos espelhos
Não são capazes de se sustentarem
E as lágrimas antes discretas
Agora precisam ser enxugadas:
“ é que a “esmola fere a mão de quem
a recebe e a mão de quem a oferta”
E nos sentimos humilhados
Porque nos parece que o processo “civilizatório”
Nos colocou em lados distintos: colonizados contra colonizados
De tal forma que os legítimos herdeiros da terra
Antes nus pretendem agora nos desnudar
E assim nos sentimos, desnudados sem direito a pintura ou cocares.
E aos pataxós se juntam as
Mais variadas etnias e culturas
E, em suas brasilidades tantas vezes excluídas
São guerreiros sem opção
Que não seja a de pertencerem à marginalidade
E o que antes no pareceu um porto seguro,
Não nos afigura tão seguro assim.
E, é assim que o sonhador
De uma realidade pretendida e não alcançada
De um mundo melhor e justo
Percebe na subjetividade de sua alma de poeta
A história que o homem constrói....
O sonhador no seu papel de Sentidor
De pensar um mundo melhor
Se queda desarmado ante a realidade
Por demais evidente...
E o mar que existe na alma da gente
Faz agora materializar suas ondas de mar e sal
E é como se a força das marés
Invadissem irremediavelmente
Os limites dos nossos espelhos...
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